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O que as mudanças no mercado de jornalismo têm para nos dizer sobre o futuro da comunicação?

Editorial aboutCOM

Notícias recentes sobre o futuro de uma das maiores editoras do Brasil, a Editora Abril, geraram uma nova onda de preocupações com relação ao mercado de jornalismo no País. As grandes mudanças servem para refletirmos sobre o que vem depois delas: o que está acontecendo? O que vai ser do jornalismo? O que são novas mídias? Para onde está indo a relação das pessoas com a informação? O que será da comunicação corporativa nesse novo cenário?

Imagine um futuro distante no qual um robô jornalista conseguiria produzir milhares de artigos por segundo e compartilhá-los com agências de notícias por todo o mundo? É uma perspectiva de impressionar qualquer bom repórter, não é mesmo? Bom, se você clicou no link anterior (ou acompanha nosso blog), deve ter visto que esse robô já existe.

Fato é que a mídia e o jornalismo, desde o fim do século XX, passam por fortes mudanças: da ampliação da tecnologia e o acesso à informação por meios digitais até o momento em que as pessoas se deram conta que podem produzir e compartilhar sua opinião. Quem cresceu vendo seus pais assinarem um jornal ou uma revista para se informar, agora sabe que pode produzir seu próprio conteúdo e vivenciar o que é ser seu próprio editor.

Essa abertura, no entanto, além de empoderar o cidadão – o que é muito bom – tem seus pontos negativos: o mais conhecido e temido deles são as fake news. Diversos veículos digitais propagam notícias, nem sempre confiáveis, vindas de diferentes fontes da internet. De acordo com o estudo realizado por cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), as fake news se espalham 70% mais rápido que notícias verdadeiras. Ponto importante é que o estudo conclui que os robôs aceleram a disseminação de comunicações falsas e verdadeiras nas mesmas proporções. Isto aponta para  fato de que as informações incorretas só se espalham mais rápido porque os humanos a disseminam mais – e não os robôs.

Com a facilidade do compartilhamento, ser um formador de opinião não é mais exclusividade de um jornalista. É possível que seu repertório seja influenciado por um online influencer ou um robô. A presença massiva de informação nas redes sociais, a proliferação de centenas de canais de TV e portais faz com que as pessoas percam um referencial constante e perene, e sejam alvos fáceis de fontes de informação duvidável, porém enviada no grupo da família no WhatsApp.

Novas mídias

Nem tudo é algoritmo. Nem tudo é webcelebridade. Na contramão do notícia automatizada, vem surgindo uma legião de jornalistas independentes que estão resgatando o jornalismo investigativo e fortalecendo o papel democrático da sociedade e deixando, aos poucos, o relato de fatos para as máquinas. Esse movimento acontece muito em função das fortes reestruturações nas editoras, com o declínio do jornalismo tradicional, redações sendo integradas e profissionais sendo sobrecarregados. De acordo com levantamento da Agência Volt, desde 2012, mais de 7 mil profissionais foram demitidos em empresas de mídia. Destes, mais de 2 mil eram de jornalistas.

Esse movimento fez surgir veículos alternativos, mais democráticos e com pautas diferentes do que é visto na grande mídia. No universo focado em tecnologia e negócios, podemos mencionar o The Brief, que é uma newsletter enviada diariamente e redigida em linguagem mais descontraída; o Inova.jor, do Renato Cruz, que também tem um visão mais moderna e atual do jornalismo em TI, alinhando seu conteúdo à negócios e inovação.

Além deles, outros projetos que se destacam, como: Me Explica, Canal Meio e Nexo Jornal,  focados em jornalismo explicativo; o Brio, que é uma ferramenta de apoio a jornalistas e freelancers; Think Olga, que é uma ONG que deseja empoderar mulheres pode meio da informação. A Agência Pública, por exemplo, funciona em um formato participativo: realiza um concurso para definir qual jornalista vai conduzir a matéria e quem contribui com a Agência pode participar ativamente, seja na discussão de pautas até à apuração.

Um ponto comum entre todos é o de repensar do papel do jornalismo, tornando-o mais plural e renovado. As equipes contam hoje com profissionais de diferentes formações para atender uma demanda por informação que não é mais só registrar, mas apoiar de uma forma mais leve e clara no ato de pensar e ser responsável pela informação que adquire. O foco é trazer informação de qualidade de forma informativa para seus usuários, fortalecendo uma sociedade mais justa e igualitária.

E como fica a comunicação empresarial?

A presença das empresas na geração de conteúdo relevante torna-se ainda mais importante, uma vez que, num cenário no qual se deparam com jornalistas sobrecarregados, construir e manter uma relação de confiança e lealdade com a imprensa é extremamente importante. Ou seja, é preciso entregar dados de qualidade, ser um porta-voz presente (respeitando a linha editorial adotada pelo veículo), conhecer o jornalista e servir como fonte (e não impor seus interesses, mas entender que a mídia deve ser um local de expressão de opiniões diversas).

A empresa, assim como o cidadão comum e uma webcelebridade, deve investir em conteúdo proprietário, de qualidade e que tenha ligação com seus públicos de interesse e, desse modo, assumir a postura de ser mídia (porque todos somos). O profissional de comunicação dentro das organizações, por sua vez, precisa ter um olhar comportamental sobre o uso da mídia por seus públicos e entender que o fator humano, mais do que nunca, é o que dita as regras que até os próprios algoritmos seguem. Apostar em uma comunicação integrada, que valorize relações (com jornalistas, inclusive), que considere gerar valor e legitimidade é a base para qualquer plano de comunicação nos dias de hoje.

Leia mais sobre esse tema em:

A tecnologia pode substituir o trabalho do assessor de imprensa?

 

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